Como o investidor consegue monitorar a evolução do seu patrimônio?

A vida de um investidor é pautada pela avaliação constante e sistemática da relação risco-retorno dos ativos onde seu dinheiro está alocado. A competência no processo de análise, tomada de decisão e monitoramento de como alocar o capital é que vai determinar a velocidade e a quantidade com que seu patrimônio vai se multiplicar.

A utilização de veículos de investimento que agreguem vários investidores com interesses similares para a aplicação em ativos específicos é uma forma natural de diluição do risco da alocação do capital. Vários investidores aportam recursos no veículo que depois são alocados em diversos ativos alinhados com a tese de investimento do veículo. Até então, nenhuma novidade.

Trazendo o conceito do Valor Justo para dentro da nossa conversa e conectando-o com o desafio da decisão de alocação de capital, gostaria de propor uma reflexão, considerando dois veículos de investimentos bastante comuns no mercado: Fundo de Investimento em Ações (FIA) e Fundo de Investimento em Participações (FIP).

Então, vamos pensar juntos.
FIA – a efetiva Marcação a Mercado
Os ativos contidos nos FIAs são ações de companhias listadas em bolsa, cujas cotações são conhecidas em tempo real e, ao fechamento de cada pregão, pode-se aferir o patrimônio do fundo e de suas cotas. Se imaginarmos uma hierarquia para a robustez das informações que consubstanciam o método valoração de determinado ativo, o nível mais alto seria aquele para preços cotados em bolsas de valores. Nessa categoria encontram-se, além das empresas listadas, ativos como commodities transacionadas em bolsas de mercadorias.

O que isso quer dizer? Que o Valor Justo é efetivamente aquele que os agentes de mercado estão dispostos a pagar naquele momento. Assim, temos a essência da Marcação a Mercado de todos os ativos investidos, que permite ao investidor saber transparentemente as oscilações de seu patrimônio, não por sua percepção de valor, mas pela percepção de valor dos atores do mercado.

O fator subjetividade do avaliador é minorado, uma vez que se passa a contar com o julgamento de milhares de avaliadores simultaneamente. Embora saibamos que podem acontecer manipulações nos mercados acionários, é mais difícil enganar milhares do que apenas um avaliador.

FIP – o desafio de medir as oscilações do patrimônio no tempo
Agora, vamos pensar em um FIP, mas não antes de fazer uma importante ressalva – estamos tratando dos fundos que são classificados como Entidades de Investimento, conforme definição das Instruções CVM 578 e 579. Essa reflexão que estamos propondo fica prejudicada, quando tratamos de fundos fechados, que não têm como função precípua a compra e venda sistemática de participações em empresas.

Os ativos investidos pelo FIP são participações em empresas, normalmente, não listadas em bolsa. Trata-se de investimentos de mais longo prazo e que, por consequência, não são negociados com frequência, não permitindo a precificação pelo mercado, a exemplo do mercado de ações. Uma forma natural de se atribuir valor a determinado ativo seria compará-lo com outros similares que eventualmente tenham sido negociados em operações de fusões e aquisições. Todavia, o mercado de M&A no Brasil não tem a mesma dinâmica das economias mais maduras, o que dificulta a adoção de operações similares como referência, e estabelecer comparações com operações realizadas em outros países traz um risco de bias elevado.

As empresas-alvo dos investimentos tendem a apresentar especificidades de mercado, de tecnologia, de modelo de negócio e maturidade de governança e gestão, que dificultam a adoção de metodologias comparativas. Isso traz mais um ingrediente para aumentar a complexidade da atribuição objetiva de valor desses ativos, incrementando cada vez mais o risco da subjetividade na análise.

E os investidores, como vão tomar suas decisões? Lembra daquela hierarquia da robustez das informações para valuation? Se as informações mais robustas são aquelas extraídas de bolsas de valores, o segundo nível seria atribuído a informações comparáveis entre si, por exemplo, de empresas com característica semelhantes que estejam sendo analisadas concomitantemente, sendo que em uma delas, teremos informações robustas precificadas a mercado.

A característica dos ativos investidos pelos FIPs, somada ao baixo número de operações de M&A de ativos similares no mercado nacional, acaba limitando a robustez das metodologias de valoração de ativos. Se em um FIA é possível avaliar a evolução do patrimônio diariamente, nos FIPs, a avaliação depende da aplicação de algum método técnico que “arbitre” o valor dos ativos, na tentativa de identificar e expressar qual tenderia a ser o valor percebido pelos agentes de mercado num determinado momento no tempo.

Trata-se de um desafio e tanto para o investidor, analisar se seu capital está bem aplicado e se suas cotas do FIP vão trazer o retorno esperado.
No próximo artigo, vamos falar de como os órgãos reguladores têm tentado organizar o mercado, de forma a dar mais segurança para os atores nele envolvidos.
Não deixe de enviar seus comentários, sugestões e dúvidas. Sua contribuição vai enriquecer nosso Webinar Gratuito, de 8 de maio de 2018, sobre Laudos a Valor Justo sob a perspectiva da CVM 579.

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Marcus Lindgren

Marcus Lindgren

Managing Partner da Moore Stephens Belo Horizonte
marcus@msbrasil.com.br